Com seu vozeirão de sax tenor e coração de clarinetista, densas madeixas branco titânio (uma de suas tintas preferidas) perfeitamente alinhadas e paletós escuros sobre camisas xadrezes invariavelmente azuis e brancas, mestre Sábat é saudado carinhosamente pelos conterrâneos portenhos como “el Senador”.
Parafraseando Millôr, este 'uruguaio de origem, argentino por hábito e brasileiro por contágio' vem nos conquistando e reconquistando a cada passagem sua por aqui.
Agora nos traz uma série maravilhosa de caricaturas de nossos ídolos da música popular brasileira, Ari Barroso, Tom Jobim, Ellis Regina, Milton Nascimento, entre outros, dando uma bela carona a um especialista na matéria, o jornalista e crítico musical Sérgio Cabral, também caricaturado por ele.
Desta vez “Menchi” nos surpreende com um grafismo e técnica de desenho espatulado de acrílica sobre papel ( o branco titânio é uma de suas fixações) que, apesar do risco inerente à liberdade dos gestos, nos revela suavemente a alma de cada um de seus caricaturados.
Lá estão, o sorriso feliz da Ellis, o ar irônico do Ari, o perfil bonachão e mineiramente largado do Milton Nascimento.
Tudo ali.
Sua capacidade de brincar e reinventar personagens tão conhecidos por todos está ligado a uma virtude pessoal e intransferível de mestre Hermenegildo: - o exercício da liberdade.
Mais uma vez, diria Millôr, Sabat leva sua linha a passeio, e os contemplados somos nós.
PAULO CARUSO
Hermenegildo Sábat (Montevideo, 1933) é uma das personalidades mais expressivas da cultura do
Cone Sul. Residente em Buenos Aires desde 1966 e cidadão argentino desde 1980, há mais
de 25 anos seus comentários jornalísticos em forma de caricatura são publicados no principal jornal
portenho, Clarín , convertendo-se - sobretudo nos períodos em que a liberdade de expressão se
viu seriamente limitada - numa das vozes de maior prestígio.
Artista plástico e professor, publicou mais de vinte livros com os temas de sua paixão: a pintura, a
música, a literatura, a atualidade argentina e internacional.
Sua trajetória foi distinguida com vários prêmios importantes, entre eles o de Personalidade Emérita
da Cultura Argentina (Secretaria de Cultura da Nação, 1997), o Maria Cabot Award de
Jornalismo (Columbia University, Nova York, 1988), o Prêmio Nacional Pedro Figari de Pintura
(Montevideo, 1997). Em 2005 recebeu o prêmio Homenaje, da Fundação Novo Jornalismo
Iberoamericano, dirigida por Gabriel Garcia Márquez.
Realizou inúmeras exposições de desenho, pintura e fotografia na Argentina e no exterior, sendo as
mais notáveis suas retrospectivas no Museu Nacional de Belas Artes (Buenos Aires, 1997), Museu
Nacional de Artes Visuais (Montevideo, 1998), Museu de Arte de São Paulo (1984) e Museu de
Arte Moderna do Rio de Janeiro (1997 ).
Seus trabalhos têm sido publicados.em vários dos principais veículos jornalísticos e gráficos do
mundo : The NewYork Times, L´Express, American Heritage, Punch, O Globo.
Durante seis anos publicou e editou a revista de artes visuais Sección Aurea, ganhadora de vários
prêmios de desenho, dentre eles o do Art Director´s Club, de Nova York.
Desde 1997 é Cidadão Honorário de Buenos Aires. Em 2003 recebeu o título de Doutor Honoris
Causa da Universidade de Montevideo, Uruguai.